Educação como arma

Coronel Nilson Giraldi

08/11/2017


O ano era 1982 e, após completar cerca de 30 anos no serviço militar, o então Tenente Coronel PM Nilson Giraldi enfrentou a perda de mais um grande amigo durante uma operação. “O Tenente José Alfredo Cintra Borim era extraordinário, como um filho para mim. Eu ia ser seu padrinho de casamento mas, durante um confronto armado, ele foi assassinado. Foi o sinal vermelho para mim”, conta.

 

Giraldi nunca se conformou com as baixas na corporação e dos civis durante as ações, mas esse acontecimento o estimulou a estudar profundamente para promover uma mudança na mentalidade sobre o uso das armas. Assim nasceu o Método Giraldi®, um treinamento internacionalmente reconhecido voltado para a preservação da vida.

 

Encontrando o caminho

 

Nascido no interior de São Paulo, Nilson Giraldi teve uma infância humilde. Perdeu o pai muito novo e procurou nos estudos, nas escolas públicas, o bom caminho. Quando passou da adolescência, viu na Força Pública uma oportunidade de seguir com a sua formação sem precisar gastar dinheiro – que não tinha – com educação de qualidade. E, apesar de nunca ter se interessado em ser policial fardado, resolveu prestar concurso para iniciar a trajetória profissional, pela qual, anos depois, se apaixonaria e descobriria sua verdadeira vocação.

 

O jovem Giraldi participou de intensos exames físicos, intelectuais e psicológicos, e iniciou a carreira, ingressando na Escola de Soldados, ascendendo para a Escola de Cabos, posteriormente a de Sargentos e, por fim, a Escola de Oficiais, todas com rígidos exames de seleção.

 

Os estudos sempre foram alvo da atenção do oficial. Anos mais tarde, ele voltaria em todas as escolas que passou, agora como professor.

 

Persistir para vencer

 

Ainda durante os treinamentos, Giraldi começou a questionar o papel da arma nas operações. “Apeguei-me à ciência, às leis, às técnicas, táticas, psicologia, lógica e à realidade do policial nas ruas, aos seus limites, a saber o efeito da química de seu corpo conduzindo suas emoções e quais reflexos traziam para suas ações”, explica o coronel.

 

Mas foi após perder o seu amigo que começou a estruturar o Método Giraldi®. Para montar o treinamento ideal, ele precisava descobrir quais as características de um confronto armado. Tomou depoimento de inúmeros policiais que passaram pela experiência e começou a desenhar um perfil para essas ações.

 

O Método Giraldi® não é um simples treinamento de tiro, mas uma filosofia de atuação armada do policial com a finalidade de preservar vidas. Seu objetivo é ensinar ao policial a resolver o máximo de situações possíveis sem o uso da força, sem tiros, sem colocar em risco a vida e a integridade de pessoas inocentes. Mas, se o disparo se fizer necessário como última alternativa, este deve ser realizado dentro dos limites da lei. Para isso, o policial é submetido a treinamentos frequentes a fim de estar condicionado a agir da maneira correta, mesmo em situações de forte estresse.

 

Para ser aplicado com sucesso, o método deve se apoiar em um tripé interdependente: “utilização de materiais e tecnologia de ponta; treinamento correto e que o agente de segurança esteja de bem com a vida”. Assim, quando aplicado, o Método Giraldi® reduz em 96% as mortes de policiais militares em serviço, a perda da liberdade do PM em virtude do uso incorreto da sua arma, a transformação de um projétil disparado pelo policial em bala perdida e a morte de pessoas inocentes provocadas por policiais militares em serviço.

 

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Dedicação à formação

 

O método tomou corpo na PM paulista, onde mais de 110 mil homens e mulheres receberam o treinamento. Atualmente, cerca de 500 policiais dão aulas sobre o Método Giraldi® na corporação. Para o coronel, uma grande polícia começa a partir com o bom exemplo. “Professores respeitosos geram policiais respeitosos que, por sua vez, gerarão uma polícia respeitosa. O professor do Método Giraldi® tem que ser exemplo, modelo e referência para seus alunos. Tem que ter paciência, insistência, persistência para ensinar, nunca aplicando castigos físicos ou psicológicos, como se fazia antes”, ressalta.

 

O coronel faz questão de que os instrutores de seu método tratem seus alunos como seres humanos. “Pessoas que choram, riem, sofrem, amam e são amadas; que têm família, que são pais, filhos, amigos e que têm sentimentos, limites e também falham, como todo ser humano. Pois, na vida, só não falhou quem nunca viveu. Entendendo o homem, é possível formar o policial com muito mais qualidade”, orgulha-se Giraldi.

 

Aos iniciantes

 

Hoje, aos 82 anos, o coronel integra o corpo docente dos cursos de Mestrado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública e de Doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. “Tudo o que tenho, e sou, devo à Polícia Militar do Estado de São Paulo”, agradece, humildemente.

 

Para os recrutas, Giraldi dá o alerta: “parte da população, descrente com a Justiça, vai exigir que o policial faça justiça com as próprias mãos. Não faça. Parte do povo acha que direitos humanos só servem para proteger bandidos. Na verdade, são amplos e irrestritos e servem também ao policial. Arma de fogo sem treinamento não serve para nada”.



Coronel Nilson Giraldi
Criador do Método Giraldi®, adotado na PMESP e em diversas instituições do Brasil e do mundo, responsável pela redução de mortes em operações policiais



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