Respeitar para reconstruir

Major Denise Pereira Pinto Gonçalves Climaco

12/07/2017


Um país devastado pela guerra, em busca da independência, tentando se reerguer com a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), foi o primeiro cenário que Denise viu ao desembarcar no Kosovo, país do leste europeu, para integrar a terceira fase da missão de paz da ONU. “Nunca esquecerei do exato momento em que as portas do aeroporto se abriram e vi vários tanques de guerra, com militares de vários países, boinas de todas as cores, e um turbilhão de sons produzidos pelos mais variados idiomas”, lembra.

 

Denise, que desde pequena ficava fascinada com o policial de trânsito que fazia a travessia de pedestres na frente da escola onde estudava tinha, então, a oportunidade de transmitir à população do Kosovo a mesma sensação de segurança e a gentileza com que fora tratada pelo PM. Hoje, major da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Denise Pereira Pinto Gonçalves Climaco, traz na bagagem a travessia do oceano Atlântico, sendo a primeira mulher da corporação a realizar tal feito.

 

O caminho até Kosovo

 

Denise estava prestes a seguir a carreira de professora, quando um amigo de infância a encontrou e a incentivou a prestar concurso para a Polícia Militar. Como a jovem já tinha interesse em trabalhar com o público, além de lembranças carinhosas da infância, adorou a dica.

 

Na época, não havia vagas para mulheres em concursos para oficiais da PM, mas Denise não desanimou. Prestou prova para ser soldado e entrou para a carreira militar. Anos depois, foi aprovada no concurso para cabo e, após quatro tentativas, ingressou como oficial no curso da Academia da Polícia Militar do Barro Branco.

 

Em 1999, ao mesmo tempo que o Kosovo iniciava o processo de independência – conquistada em 2008 após longos anos de guerra – Denise era transferida para o Batalhão de Policiamento Feminino.

 

A então tenente vislumbrou em uma missão internacional o aperfeiçoamento do que mais gostava na polícia: a questão humanitária. Ficou atenta às aberturas de vagas para missões da ONU e, em 2001 fez prova para atuar no Timor Leste, mas reprovou.

 

Uma outra oportunidade surgiria somente seis anos depois. Uma nova missão, em um novo destino: Kosovo. “Li tudo que podia sobre o país. Na época, procurei algum militar brasileiro que estivesse em Kosovo e encontrei, pelo Orkut (antiga rede social), um oficial do Bope do Rio de Janeiro que participava da segunda fase da missão”, lembrou. Ele me alertou para vários detalhes e me deu dicas valiosas”, recordou.

 

Mas, para ser aprovada precisaria passar por testes práticos que exigiam desde preparo físico até um vasto conhecimento em língua inglesa. “A gente ouvia a comunicação da ocorrência e precisava transcrever para o papel de forma fidedigna”, justificou. Ela foi aprovada em todas as fases e, em 2008, foi convocada. Chegava a hora de partir.

 

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A missão

 

Reconstruir um país destruído pela guerra e devolvê-lo aos cidadãos não é tarefa fácil. Por isso, a missão de paz foi dividida em três fases. A primeira era garantir a ordem pública; a segunda fase era formar a polícia do próprio país; e a terceira fase, onde a major Denise participou, era a de entregar o país ao povo, garantir eleições e preservar o que fora conquistado.

 

A oficial e um colega eram os únicos policiais brasileiros naquele momento, em que a missão era conduzir o encerramento logístico da operação, fazendo transposição de material e informações às Forças Europeias que estavam chegando para permanecer em Kosovo por tempo indeterminado.

 

Outra vida volta na bagagem

 

Ao longo dos oito meses que passou no país do leste europeu, Denise aprendeu que, em missão humanitária, mostrar respeito à cultura local, é começar um trabalho promissor. “Percebi que conhecer a história de um povo e respeitá-la pode nos levar a chamar de casa qualquer lugar do mundo”, salientou.

 

Quando voltou ao Brasil, integrou vários batalhões da capital paulista e foi promovida a capitã e major. Na bagagem, trazia o conhecimento adquirido na viagem e o desejo de compartilhar. Por isso, ministrou aulas na Escola Superior de Sargentos, nos cursos de Aperfeiçoamento e Formação, em diversas disciplinas. “É importante que os novos policiais saibam a importância de representar a nossa instituição e o Brasil internacionalmente. Eu, como fui a primeira mulher da PM de São Paulo a participar desse trabalho, posso dizer que o valor de enfrentar desafios da natureza extrema, da língua, costumes e conhecer gente que quer reconstruir um país aniquilado é transformador”, conta.

 

Perto da aposentadoria, a major ainda quer contar muitas histórias e, para tanto, pretende continuar partilhando conhecimento, seja fazendo traduções em grandes eventos, seja dando aulas a novos policiais. “Quando entrei na polícia, minha forma de ver o mundo mudou. Quando fui para um país em guerra, minha vida se transformou para sempre”, confessou a oficial brasileira.



Major Denise Pereira Pinto Gonçalves Climaco
Durante os meses que integrou a missão de paz liderada pela ONU no Kosovo, aprendeu que mostrar respeito à cultura local é o primeiro passo para um trabalho promissor



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