Além das marés

Cabo Marco Vinícius dos Santos

26/07/2016


Quase meia hora agarrado a um barco virado e as forças de um comerciante de 40 anos se esvaíam. Seu pai, de 65 anos, parceiro de naufrágio, já estava em desespero ao ver o filho ficar longos períodos com a cabeça sob a água, e voltar à tona sem fôlego. Ao redor, mar a perder de vista. Para completar o quadro de agonia, o frio e a hipotermia se aproximava de braçadas. Mas eles não estavam sozinhos. O cabo Marco Vinícius dos Santos, de 48 anos, comandava a equipe policial marítima que patrulhava a região e resgatou pai e filho usando o instinto como a principal ferramenta para o bem-sucedido trabalho de campo.

 

O resgate

Pai e filho saíram de casa para pescar no litoral de São Paulo. Alugaram um bote numa marina e seguiram pelo canal. Não contavam que o mau tempo afetasse tanto a maré e, pouco antes das 13h, uma grande onda faria com que a embarcação dos pescadores virasse.

 

O bote ficou tombado, servindo de apoio para pai e filho, que sustentavam seus corpos apenas com a força dos braços. Gritos de socorro não funcionaram, pois não havia ninguém por perto. Os minutos passavam e os corpos começavam a esfriar rapidamente. Os lábios começaram a ficar roxos e o filho acabou esmorecendo primeiro.

 

O clima instável fez com que o cabo Marco Vinícius e seus companheiros, Sandro França e Genildo Fernandes, mudassem a rota programada para a patrulha da 5ª Companhia Marítima, do 3º Batalhão Ambiental. “O mar estava muito mexido. Muita correnteza e ondas ficando altas. Não era seguro. Avisei pelo rádio e começamos a voltar”, conta o comandante da equipe. Próximo do Canal de Bertioga, Vinícius começou a ouvir um barulho estranho e pensou que era o motor de seu barco. A equipe parou para verificar se estava tudo em ordem.

 

Enquanto vasculhavam o barco, Vinícius olhou para o lado esquerdo e viu, cerca de 70 metros distante, algo que lhe chamou a atenção. “Era algo que fugia à normalidade. Algo diferente na paisagem”, conta. Passados alguns minutos, os policiais perceberam que se tratava de um bote virado. Mas por que um bote estaria largado ali, do lado do mangue? De onde vinha? Quem o havia tripulado?

 

Os policiais se aproximaram. “Quando chegamos a uma distância menor, foi possível ver as mãos do comerciante filho, que tentava, desgastado, manter a cabeça fora da água. As vítimas usavam capas que estavam bem pesadas”, explica. Os policiais jogaram boias e coletes salva-vidas para os náufragos. Depois, os resgataram para o barco policial.

 

Intuição que vale vida

Marco Vinícius sempre confiou em seus instintos desde muito jovem. Quando pequeno, acompanhava com os olhos as viaturas policiais e se empolgava com a ação. Mas, foi quando um amigo de infância apareceu de farda na rua que ele soube: era na PM que seguiria sua vida. E seguiu o instinto: ingressou na Polícia Militar onde trabalhou por 12 anos nas ruas. Foi quando surgiu a oportunidade de realizar um trabalho diferente. Sua nova viatura seria uma embarcação e sua missão seria garantir a segurança em alto mar. Porém, mais do que a aptidão inata, para ele a satisfação de olhar nos olhos de uma vítima que quase morreu e perceber o agradecimento, do fundo da alma, é o que mais vale a pena.



Cabo Marco Vinícius dos Santos
Há 29 anos na Polícia Militar, sempre confiou em seus instintos. Essa característica é fundamental para mudar a rota na hora certa e salvar vidas



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