Por um fio

Cabo Clodoaldo da Silva Neves

30/06/2016


Você tem que salvar a vida de uma bebê de dois meses e, para isso, tem apenas alguns minutos. Está a quilômetros de distância da criança engasgada e tem como ferramenta só o aparelho telefônico. Como interlocutora, a mãe da garotinha, desesperada. Como proceder com tantos obstáculos a transpor, em tão pouco tempo? A missão do cabo Clodoaldo da Silva Neves, de 37 anos, em abril de 2016, não permitia erros. E, quando ele ouviu um choro infantil pelo telefone, soube: o treinamento exaustivo, o controle emocional e o foco foram fundamentais para o êxito no trabalho.

 

Clodoaldo trabalha no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de Araçatuba, no interior de São Paulo. Tinha iniciado o trabalho bem cedo e atendeu pelo serviço 190. Passava pouco das 7h quando recebeu a primeira ligação do dia: uma mãe que amamentava sua filhinha de dois meses de idade ligou para a polícia, em pânico. A menina havia sufocado e estava sem fôlego, ficando roxa, e a mãe pedia ajuda para salvar a vida da pequena.

 

O policial militar teve de somar suas habilidades num único momento e aliá-las à compreensão do quadro para tomar decisões vitais. “Eu precisava do máximo de informações para saber a gravidade do problema. Eu precisava prender a atenção da mãe e controlar o desespero dela, porque naquele momento as mãos dela tinham que ser as minhas. Os olhos dela teriam que ver por mim. A vida do bebê dependia da nossa integração”, lembra.

 

Choro da recompensa

Começava então uma jornada de pouco mais de 3 minutos que valeram uma vida. Clodoaldo soube, ali, porque sempre quis ser policial. A gana de fazer um salvamento, brigar pelo bem alheio é natural para ele. “Coloca o peito dela na tua mão. Bate nas costinhas dela, devagar. Voltou a respirar?”, orientava. A mãe, em prantos, exigia firmeza do policial: “Não chora, não. Senta ela de frente para você”. Clodoaldo deu instruções com cuidado. E o tempo todo pedia informações para a mãe sobre o estado físico da criança.

 

Enquanto orientava a mãe, Clodoaldo intercalava as dicas de manobras de ressuscitação com perguntas sobre o endereço da vítima. O cabo Clodoaldo designou o soldado Henrique para ir até a casa onde a criança estava. “Precisava de foco e calma para lutar contra o tempo”, explica. A mãe fez sucção com a boca no rosto da menina. E Clodoaldo ouviu o primeiro choro, quase quatro minutos depois de começar a socorrer mãe e filha. Era sinal de que a dedicação à profissão fora recompensada. Uma vida iniciante foi preservada. Pelo telefone, uma mãe de coração aliviado, quase sem forças, tinha prazer em dizer: “muito obrigada”. No peito de Clodoaldo a sensação do dever cumprido.

 

Treinamento e vocação

Clodoaldo, desde os 8 anos, acompanhava a família nas plantações de algodão em Nova Lusitânia. Aos 14 anos, já trabalhava com registro em carteira. “Comecei cedo. Carpia, construía cerca, vacinava gado. O que viesse de trabalho eu encarava”, recorda. E, desde aquela época, quando via as viaturas passando na frente da roça dizia: “um dia vou ser policial. Vou ajudar as pessoas”.

 

Em 2001, passou em concurso e realizou o sonho. Seguiu para a capital de São Paulo, onde iniciou carreira trabalhando em setor administrativo. Mas, Clodoaldo queria estar nas ruas, perto de onde estava o povo e a adrenalina da profissão. Então, em 2008, passou a patrulhar as ruas do Centro. Foram quatro anos. “Eu atendi a muita ocorrência ligada ao consumo e venda de drogas. Também prendi ladrões de carros e participei da prisão de uma quadrilha de ladrões de residência, que fizeram família refém. Um dos cinco homens que prendi era procurado por latrocínio”, conta.

 

Depois de 2012, Clodoaldo voltou para o interior de São Paulo. Onde passou a atender às chamadas do 190. O salvamento do bebê para ele foi um trabalho inédito. “A gente faz treinamentos frequentes e tem também várias aulas teóricas com o pessoal do Corpo de Bombeiros. E tem que levar a sério, pois nós nunca sabemos quando teremos de usar na prática tudo que aprendemos”, ressalta.

 

Clodoaldo diz que a sensação de resgatar uma vida tão jovem é estímulo para seguir na profissão. “Minha família fica emocionada e orgulhosa. Sei que fiz o meu melhor para fazer o bem. Sou um homem simples. Mas, sei que tenho vocação. Aquela chama dentro da gente que faz você se superar em situações tensas e de risco. Alguém precisa ajudar. Eu quero ser sempre essa pessoa”.



Cabo Clodoaldo da Silva Neves
Treinamento técnico, controle emocional e vocação foram determinantes para salvar a vida de um bebê através de atendimento no 190



Compartilhe essa história para condecorar esse

História de Fibra

Outras histórias de Heróis de Fibra