Um homem de honra

Soldado Kerley Tadeu da Silva Jerônimo

06/12/2015


A determinação de Kerley sempre foi seu trunfo. Aos 18 anos, quando ingressou na Força Aérea Brasileira, percebeu que essa característica é motor de seu êxito, seja qual for a missão.

Durante os quatro anos em que esteve por lá, aprendeu em todos os sentidos. Superou situações de pressão, ampliou sua resiliência, coragem e disciplina. Depois de muito conhecimento, sentiu que o momento era de mudança. Ele queria estar nas ruas.

Para isso, ingressou na Polícia Militar em 2008, aos 22 anos. Essa nova etapa de sua vida exigiria, ainda mais, de sua determinação. Um acidente grave mudaria radicalmente o seu destino, mas não foi suficiente para o fazer desistir de seus sonhos.

Vocação

O soldado Jerônimo sempre trabalhou no controle de multidões. Seja em grandes eventos, jogos de futebol profissional ou manifestações de rua, Kerley sempre cumpria sua missão: preservar as pessoas em situação de grandes aglomerações. “É preciso ter muita atenção em um ambiente de muita adrenalina. Isso nos estimula, nos já nos move. Mas a chance de proteger um trabalhador que leva seu filho para assistir a uma partida de futebol no estádio é um combustível ainda maior”, descreve.

O soldado atuou em grandes clássicos do futebol brasileiro e eventos de grande porte. “A gente não pode perder o foco. Temos que identificar o mais rápido possível vândalos e criminosos e isolá-los”, conta. O policial orgulha-se em dizer que seu trabalho ajudou a salvar muitas pessoas.

Ele reconhece que o amor à profissão é fundamental para realizar um bom trabalho. “Eu nasci para proteger. Quem não gosta do que faz, pode comprometer a missão”. Kerley mostra na prática sua paixão pela profissão.

O acidente

Em 2012, quando voltava para casa em sua moto, ele se envolveu em um acidente com um carro, que provocou uma lesão gravíssima em sua perna esquerda. Consciente, sem dor, Kerley aguardava a chegada dos bombeiros. Em certo momento, quando tentou se levantar, sentiu uma dificuldade acima do normal.

Foi levado ao Centro de Tratamento Intensivo, onde os médicos realizaram todas as manobras possíveis. Apesar dos esforços, a perna de Kerley estava seriamente comprometida e uma péssima notícia não tardaria a chegar: A amputação do membro, um pouco abaixo do joelho, era inevitável.

A dor, que não sentiu na hora do acidente, surgiu de forma extrema em todos os sentidos. Imaginava o fim da carreira, pensava no futuro incerto. A tristeza era o maior desafio.

Na internação, enquanto descobria maneiras de fazer o tempo passar, assistiu a um filme que o deixou inspirado. Na televisão passava “Homens de Honra”, estrelado por Cuba Goodwing Jr. e Robert De Niro.

Kerley se identificava com a  história do primeiro mergulhador oficial negro nos EUA que, mesmo perdendo a perna, conseguiu ser reintegrado às atividades operacionais na Marinha americana.

Ponto de virada

Apesar das perspectivas contrárias dos médicos, Kerley estava determinado a voltar à ativa. A primeira vista um possível retorno se daria para desempenhar funções administrativas, o que não o agradava. “Muitos me diziam que, daquele jeito, trabalhar na rua era impossível. Comprometeria a mim e à tropa”, lembra.

Em meio a muita descrença, ele encontrou na família a força para seguir. “Com cadeira de rodas, você enfrenta olhares de pena, calçadas sem adaptação, dificuldade para entrar num ônibus. Isso foi superado. Parti para uma próxima fase: a prótese”.

Além disso, o soldado começou a faculdade de Educação Física. Participava de todas as aulas práticas e, na PM, passou seis meses trabalhando internamente na administração, sem deixar de lado sua vontade em voltar para a rua.

Persistente, ele pediu reavaliação da junta médica.“Nem me aplicavam as provas, por achar que eu não conseguiria”, lembra. Mas, com o apoio do comando do Choque, laudos particulares e um parecer do comandante, Kerley se candidatou para o curso prático de formação da Tropa de Choque.  Dos 36 inscritos, seis saíram no primeiro dia de aula. Kerley e mais 23 homens concluíram a jornada. Ele fechou com notas máximas.

O caminho mais longo

A determinação de Kerley sempre foi o seu trunfo. Hoje, como o primeiro escudeiro da PM mineira, ele segue em frente da tropa para protegê-la. Além disso, o soldado também é o responsável pela segurança do subcomandante do Choque.

Toda a sua vivência o faz enxergar novas possibilidades. “Um cadeirante não poderia estar nas escolas, dando orientações sobre prevenção às drogas?”, indaga.

O policial se apresenta em palestras internas e reconhece que os olhares direcionados a ele mudaram. “Hoje há respeito, admiração. Me sinto muito orgulhoso”.



Soldado Kerley Tadeu da Silva Jerônimo
Tendo a determinação como trunfo, ele superou limites sem pensar em desistir da sua vocação



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