Você pode escolher

Sargento Charles Henrique Coelho

26/11/2015


Pelos corredores das escolas municipais no interior de Minas Gerais, o sargento Charles Henrique Coelho reconecta-se com sua história. Ele se dedica ao Programa Educacional de Resistência às Drogas – Proerd e leva, por meio de atividades lúdicas, uma mensagem positiva aos alunos. Com frequência, usa a canção “É preciso saber viver” de Roberto e Erasmo Carlos, para conversar com os jovens sobre as escolhas da vida. Charles, também nascido e criado em um bairro carente, sabe bem o desafio que é fazer boas escolhas em um cenário de adversidade.

Vocação

Mesmo vendo amigos optando pelo caminho do crime, o menino Charles desenvolveu uma força própria que o levou a outro destino. Ainda criança tornou-se escoteiro e, logo ao completar 18 anos, entrou para a Polícia Militar. Ali viu sua vocação, um trabalho no qual poderia retirar não somente as pedras de seu caminho, como diz a canção, mas também ajudar outras pessoas. Para isso, fazia uma jornada tripla. “Eram 12 horas de trabalho na viatura durante o período noturno. Pela manhã, deixava o serviço e ia para a faculdade, cursar direito. Nas horas de folga, participava do Proerd”, relembra.

Via de mão dupla

noticia2-2

O cotidiano do policiamento noturno era, muitas vezes, sacrificado para o sargento, que recorda ter prendido alguns amigos de infância que acabaram se envolvendo em crimes. Além disso, sua mulher e os filhos, hoje com 9 e 15 anos, percebiam Charles estressado, ausente por conta das rondas e operações para aumentar a segurança.

Isso tudo o fez olhar para sua própria trajetória, a história de seu bairro, dos jovens dali e resolver dedicar-se em outra frente, a da educação. “Resolvi apostar num trabalho de médio e longo prazo”, conta ele.

Relação de confiança

Charles passou a atuar no Programa Educacional de Resistência às Drogas – Proerd que, pouco a pouco, foi ganhando espaço no cotidiano do Sargento. Hoje, ele dedica a maior parte de sua atenção profissional a este trabalho e acredita que a educação e a atenção destinada aos jovens são a melhor solução para enfrentar os problemas com os quais conviveu durante sua própria juventude. “Estreitamos o laço com a comunidade, estabelecemos uma relação de confiança. Os alunos desabafam. Muitos sofrem violência doméstica, convivem com o tráfico de drogas bem de perto. Isso nos permite saber de situações específicas, que dificilmente saberíamos”, diz.

Diálogo

Desde 2003, Charles formou aproximadamente 7000 crianças no Proerd. As histórias de vida de cada uma estão marcadas na memória do policial. Como por exemplo, uma garota que andava triste e com medo. Ela tinha marcas no pescoço e, quando perguntada pela professora, dizia que era por conta de uma queda de uma goiabeira, brincadeira de criança. No entanto, para o Sargento, a menina confidenciou que a mãe, usuária de drogas, batia nela com um chicote. O simples fato de acordar a mãe para que ela a levasse para a escola era motivo para a violência. Sabendo do caso, o Sargento acionou o conselho tutelar, encaminhando o caso para a Justiça em busca de uma melhor solução.

Não gosto de polícia

Em sua jornada no Proerd, o Sargento se deparou com uma garota que dizia odiar policiais. “Era dispersa e demonstrava um comportamento de revolta durante minhas palestras. Abri espaço para o diálogo com ela, ouvi coisas de sua vida”, entre elas, descobriu que mãe da menina tinha sido presa por tráfico de drogas. “Ela foi falando e eu descobri mais, quem fez a prisão dela fui eu, anos antes”, relembrou o Sargento.

Com a conversa aberta, ele conseguiu recuperar a atenção da menina. “Quero apenas que ela saiba o melhor caminho a trilhar e que pode contar comigo para ajudá-la nesta tarefa. Hoje, é um aluna exemplar. Amanhã, quero que seja uma cidadã”, diz o policial militar.

Fazer a diferença

Todos os dias, são pelo menos 300 quilômetros percorridos para chegar às escolas de oito municípios: Cataguases, Dona Eusébia, Astolfo Dutra, Itamaraty de Minas, Leopoldina, Santana de Cataguases, Miraí e São Sebastião da Vargem Alegre. Com o programa e o relacionamento construído com crianças e pais, o Sargento tornou-se um multiplicador de boas ações.

Ele também se mobiliza para ajudar a comunidade. Arrecadou, junto a empresários e comerciantes da região, meia tonelada de alimentos para auxiliar a 18 famílias em situação de extrema pobreza, amparadas pela Sociedade São Vicente de Paula. “Eu não quero passar por essa existência sem ter feito diferença, sei que posso fazer sempre um pouco mais”, finaliza.



Sargento Charles Henrique Coelho
Desde os 18 anos na Polícia Militar, se dedica ao Proerd e faz a diferença na vida de centenas de jovens atendidos pelo programa



Compartilhe essa história para condecorar esse

História de Fibra

Outras histórias de Heróis de Fibra